ANEDOTÁRIO, CASOS E CAUSOS E PEQUENAS LOCUÇÕES 2

O anedotário político brasileiro

Perspectivas

Quais as perspectivas que se apresentam ao Brasil em um contexto de crise? Confesso que não sei responder. Mas uma historinha do Nery sobre perspectivas pode ajudar a responder:

Luís Pereira, pintor de parede, dormiu com 200 votos e acordou como deputado federal. Era suplente de Francisco Julião, líder das Ligas Camponesas, em Pernambuco, cassado pela ditadura. Chegou a Brasília de roupa nova e coração vibrando de alegria. Murilo Melo Filho melou o jogo, logo no aeroporto, com a pergunta abrupta:

– Deputado, como vai a situação?

Confuso, nervoso, surpreso, sem saber o que dizer, tascou:

– As perspectivas são piores do que as características.

Pois é, a esta altura, tem muito Luís Pereira perorando por aí...


 

Engano de segundo grau

31 de março de 1964. Benedito Valadares se encontra com José Maria Alkmin e Olavo Drummond no aeroporto de Belo Horizonte:

– Alkmin, para onde você vai?

– Para Brasília.

– Para Brasília, ah, sim, muito bem, para Brasília.

Os três saem andando para o cafezinho, enquanto Benedito cochicha no ouvido de Drummond:

– O Alkmin está dizendo que vai para Brasília para eu pensar que ele vai para o Rio. Mas ele vai mesmo é para Brasília.

Esse tipo de artimanha é chamado de engano de segundo grau. Quer dizer: engano meu interlocutor, dizendo-lhe a verdade para tirar proveito da sua desconfiança. A primeira historinha é judia e expressa com humor o refinamento a que leva o ocultamento de informações:

“Que sacanagem, o senhor quis fazer-me acreditar que vai a Minsk. Acontece que o senhor vai a Minsk”.

 

A prisão... suavemente...

José Maria Alkmin foi advogado de um crime bárbaro. No júri, conseguiu oito anos para o réu. Recorreu. Novo júri, 30 anos. O réu ficou desesperado:

– A culpa foi do senhor, dr. Alkmin. Eu pedi para não recorrer. Agora vou passar 30 anos na cadeia.

– Calma, meu filho, não é bem assim. Nada é como a gente pensa da primeira vez. Primeiro, não são 30, são 15. Se você se comportar bem, cumpre só 15. Depois, esses 15 são feitos de dias e noites. Quando a gente está dormindo tanto faz estar solto como preso. Então, não são 15 anos, são 7 e meio. E, por último, meu filho, você não vai cumprir esses 7 anos e meio de uma vez só. Vai ser dia a dia, dia a dia. Suavemente.

(Sebastião Nery conta as historinhas ( acima e abaixo) em Folclore Político).

 

A crise... suavemente...

Pois bem, a todos aqueles que se afligem com a pororoca que já mostra sinais de destruição, nada mais oportuno que pinçar a lembrança do sábio Alkmin:

– Calma, gente, a crise não atacará de forma violenta. Cada um vai vivenciá-la de modo diferente. Se durar seis meses, passaremos boa parte do tempo dormindo. Noutras vezes, comendo. Bom espaço do tempo será dedicado a conversas. Outra parte ao lazer. Depois, a crise será vivida dia a dia, dia a dia. Suavemente...

 

Rima

Lacerda, governador da Guanabara, candidato à presidência da República, foi a Montes Claros, no norte de Minas, (onde Aécio Neves divisa um pedaço do Nordeste a partir de sua terra mineira). A cidade amanheceu com os muros pichados: “Lacerda rima com m...”. No comício, à noite, Lacerda acabou o discurso assim:

– Aos meus amigos, deixo um grande abraço. Aos meus adversários, a rima.

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