
O DIA DA CIDADANIA
22 Outubro 2026by Gaudêncio Torquato

A ELEIÇÃO DO ORÇAMENTO APERTADO
16 Outubro 2026by Gaudêncio Torquato

EMPATIA, SIMPATIA E REJEIÇÃO: AS ALAVANCAS DO VOTO
13 Outubro 2026by Gaudêncio Torquato
O anedotário político brasileiro
Interpelando ato vil
A historinha é conhecida e, por ser muito boa, merece um repeteco.
Rui Barbosa, o Águia de Haia, chegava em casa, à noitinha, quando ouviu um barulho vindo do quintal. Chegando lá, viu um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o, ao tentar pular o muro com seus amados patos, passou-lhe um pito:
– Oh, bucéfalo anacrônico! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares de minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica bem no alto da sua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
E o ladrão, perplexo e confuso, com um fio de voz, perguntou:
– Doutor, eu levo ou deixo os patos?
Franco Montoro
Depois de deixar a esfera governativa e parlamentar, Franco Montoro passou a se dedicar ao Instituto Latino-Americano – ILAM. Na condição de presidente desta entidade, foi a um almoço organizado por um pequeno grupo de professores da USP no restaurante do campus. O ex-governador, como se sabe, tem registrado em sua história muitos casos de dislexia, momentos em que confundia nomes, alhos com bugalhos, motivando risos nas cerimônias. A conversa fluía bem, versando sobre os mais diferentes problemas do país. A certa altura, ele se surpreendeu ao saber que este escriba era potiguar. Mais ainda: tio de Sônia, casada com João Faustino, tucano do melhor naipe e seu dileto amigo. Montoro e dona Lucy foram padrinhos do casamento de uma das filhas de João e Sônia. De repente, lá vem a pergunta:
– E como está o Agrário? Você sabe como ele vai?
Passo a lupa na mente e lamento ignorar a identidade da figura. Mas vou procurar saber, logo, logo.
Mudamos de assunto. Mas o Agrário continua a frequentar o meu sistema cognitivo. De repente, Eureka! Agrário? Agrário? Não seria o Urbano?
Tomo a iniciativa:
– Governador, será que o senhor não
confundiu o Agrário com o Urbano?
– Ah, sim, é claro, é claro. Desculpe. Como vai o Urbano?
Francisco Urbano era presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG. Um potiguar muito conhecido nos universos sindicalista e político.
A dislexia do ex-governador paulista havia intercambiado o espaço rural com a geografia urbana.
Franco Montoro, exemplo de Honradez, Dignidade, Seriedade, Civismo, Independência e Amor à Pátria.
Quanta falta ele faz nesses tempos de lamaçal político.
A semântica janista
O discurso semântico de Jânio – a substância de sua fala – ganhava mais força pelo impacto causado pelo discurso estético, a impressão provocada por sua maneira de falar, os olhos esbugalhados, os cabelos compridos e revoltos, a barba por fazer, um jeito desleixado que confundia interlocutores e assistentes: aquilo seria natural, coisa do acaso, ou algo preparado, artificializado? Em Jânio, essa ambiguidade tornou-se marca de sua personalidade. Ficaram famosas suas campanhas em São Paulo, desde os tempos de vereador, quando escolheu o bairro de Vila Maria para montar o primeiro palanque de sua trajetória. Ombros cheios de caspa, sanduíches de mortadela, pão com banana, tudo sob as vistas dos fotógrafos, eram um prato saboroso para a mídia.
Tempos de Jânio
Nessa época, este consultor presenciou alguns erros cometidos por Fernando Henrique, que disputava com Jânio a prefeitura da capital. Jânio, sem grana e sem recursos, refugiou-se em um dos estúdios da TV Record, na avenida Miruna, em Moema, de onde fazia perorações duras (e sem efeitos televisivos) contra a bandidagem e a violência que assolavam a capital. Dona Eloá, ao seu lado, com o olhar para chão, doente e vestida de maneira simples, não dizia um pio. Fazia o papel de esposa silenciosa. Ao lado de um perfil que emanava autoridade, respeito, dignidade. Fernando Henrique, vestido em seu terno xadrez, corria a periferia, gravando para o programa eleitoral entre os trilhos do metrô que deveria chegar à Zona Leste. Simplicidade e austeridade, de um lado; fausto e opulência, de outro. Algo era incongruente. Um scholar na periferia? Um popularesco escondido na TV?
Juiz? Também o fui
Jânio Quadros, descreve Nery, era um ás na técnica da enrolação. Visitava Fortaleza e ficou na casa do deputado Jorge Furtado Leite. Descansava numa rede, quando Furtado tentou convencê-lo a receber uma comitiva de juízes.
– Não os recebo. Juiz é magistrado. Não pode fazer política. Eles não têm nada a me dar e nem tenho nada a prometer-lhes.
De repente, viu que estava cercado de juízes. Prontamente se levanta e exclama, em alto e bom som:
– Juízes dessa querida terra, que também o fui...
E conversou lorota por mais de duas horas com eles. Sob o efeito de uma cachacinha.
Getúlio, eu fico
Getúlio Vargas sempre conservou int procurá-lo para saber se era verdade. E ele:
– Não, meu candidato é o Eurico (marechal Eurico Gaspar Dutra); mas se houver oportunidade, eu mudo uma letra: Eu Fico.
(Isabel Lustosa)