ANEDOTÁRIO, CASOS E CAUSOS E PEQUENAS LOCUÇÕES 4

O anedotário político brasileiro

“Leu os livros errados”

Brasília, Congresso Nacional, 11 de abril de 1964. Castello Branco não teve o voto de Tancredo Neves, seu amigo pessoal de longa data, companheiro na Escola Superior de Guerra, em 1956. Tancredo bateu o pé. Comunicou ao PSD que votaria em branco, apesar dos méritos e credenciais do general Castello Branco. Questão de princípio: era contra o golpe. Não queria nem um minuto de regime militar, não abria mão da democracia.

Conta-se que, esgotados todos os argumentos dos pessedistas para convencê-lo, o amigo e ex-chefe JK, então senador por Goiás, fez um apelo: “Mas, Tancredo, o Castello é um sorbonniano, estudou na França. É militar diferente, um intelectual como você. Já leu centenas de livros!”. Tancredo: “É verdade, Juscelino. Só que ele leu os livros errados”.

Dois meses depois o governo cassou o mandato e os direitos políticos de JK, que partiu para o exílio e o sofrimento sem fim.

(Caso narrado por Ronaldo Costa Couto).

O ciclo Kubitschek

Figura carismática, Juscelino Kubitschek era jovial, alegre. Encarnava o Brasil moderno. Em 1959, o palhaço Carequinha popularizou uma batucada de Miguel Gustavo – Dá um jeito nele, Nonô (“Meu dinheiro não tem mais valor./Meu cruzeiro não vale nada./Já não dá nem pra cocada./Já não compra mais banana./Já não bebe mais café./Já não pode andar de bonde./Nem chupar picolé./Afinal, esse cruzeiro é dinheiro ou não é?”).

O clima ambiental era de descontração, como demonstra a historieta gráfica da revista Careta: “Juscelino: – Preciso de divisas, ouro, seu Alkmim, para as realizações do meu governo. O ministro: – Ouro, seu Juscelino?! Eu sou Alkmim, não sou alquimista”.

Vestiu a camisa do desenvolvimento e seu slogan “50 anos em 5” foi um sucesso. Colou. Seu sorriso era a estampa de um país feliz.

(História narrada por Isabel Lustosa)

 

Raposa política

José Maria Alkmin, ministro da Fazenda de Juscelino Kubitschek, raposa política como os mineiros do passado, sabia se safar de situações inesperadas. Lançou campanha contra o sistema de crediário, dizendo que a prestação era o maior fator de inflação. A Associação Comercial do Rio ficou furiosa e foi queixar-se ao presidente. JK mandou chamar o ministro. Nery narra a conversa:

– Alkmin, eles dizem que você está prejudicando o comércio, com essa campanha contra a venda à prestação.

– Mas, presidente, eu não estou contra a venda à prestação. Eu estou é contra a compra à prestação.

Noutra feita, encontrou o filho do eleitor:

– Como vai seu pai, meu filho?

– Meu pai já morreu há muito tempo, doutor Alkmin.

– Morreu pra você, filho ingrato. Porque continua vivo no meu coração.

Numa cidade mineira, esqueceu o nome de um correligionário que lhe pedia um autógrafo. Deu o velho golpe:

– Seu nome todo, meu filho?

– Doutor Alkmin, escreva o que sabe, que depois eu digo o restinho.

– Mas é que não fica bem a gente pôr na caderneta os apelidos de família dos amigos.

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José Maria Alkmin, um dos maiores sábios mineiros, nunca perdia a tirada.

O eleitor chegou aflito:

– Doutor Alkmin, meu filho nasceu, eu estava desprevenido, não tenho dinheiro para pagar o hospital.

A matreira raposa tascou:

– Meu caro, se você que sabe há nove meses, estava desprevenido, calcule eu que soube agora.

 

Armado de admiração

Tenório Cavalcanti, udenista e adversário político de Vargas, foi ao Catete numa comissão de deputados. Andava nas manchetes dos jornais por causa de suas estripulias em Caxias, na base da “Lourdinha” (metralhadora) e da capa preta. Getúlio o cumprimentou, olhou bem para o volume do revólver embaixo do braço esquerdo, sob o paletó:

– Deputado, o senhor está armado?

Tenório ficou vermelho, mas não perdeu o bote:

– Sim, presidente, armado de admiração por V. Excelência.

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