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Essa foi uma das primeiras campanhas com as quais trabalhei, envolvendo a candidatura de João Faustino (1942-2014) a governador do Rio Grande do Norte, em 1986. Lembro-me de um episódio, no início dos trabalhos.
Ocorreria um evento que consistia em um misto de comício e inauguração da rádio da cidade. O povo foi convidado, desde as primeiras horas da manhã, a comparecer ao festejo, onde estariam as principais lideranças políticas do estado, a partir do governador e de seu candidato.
A falação começou às 18h, com os vereadores. Os discursos terminaram por volta das 23h. A multidão, fatigada depois de cinco horas de cantilena, já não tinha forças nem Motivação para se animar com o show, a seguir, de dois dos maiores ídolos do Nordeste, na época: o sanfoneiro Luiz Gonzaga (1912-1989), o rei do baião, e o cantor-compositor Raimundo Fagner.
As brincadeiras e gracejos do Gonzagão, no palco, eram recebidos em pleno silêncio. O povo não dançava, não ria, braços cruzados, com as estrepolias do Gonzagão tentando afugentar insetos que dançavam em torno das lâmpadas do palco. O mesmo ocorreu com Fagner.
Foi um desastre. Ouvi, logo depois, no hotel onde ficou a caravana, a maior coleção de impropérios que um cearense (Fagner) já proclamara contra “políticos insensíveis que nos entregaram à multidão faminta e cansada... Nunca mais aceitarei trabalhar em comício eleitoral”.
Deitado numa rede na varanda, o tempo já entrando pela madrugada, Luiz Gonzaga, dirigindo-se a Fagner, repetia: “Calma, meu filho, calma. Política é assim. O povo é tratado como bicho...”. Apresentei-me a ele, lembrei que ele havia passado por Luís Gomes (RN), em meus tempos de infância. Tantas cidades do Brasil visitadas por eles apagaram a lembrança.
Poucos dias depois, Raimundo Fagner estava engajado na campanha de Tasso Jereissati no Ceará. (Certo dia, encontro Fagner num sítio do meu sobrinho Galeno, em São Miguel/RN; lembro o episódio e ele resmunga: “Gaudêncio, foi um dos piores shows de minha vida”.)
Vale a pena lembrar que o personagem que usava a tática de entorpecer a massa era Adolf Hitler. Com um longo discurso, deixava-a em estado de sonambulismo, mesmo usando uma gritaria veemente e atordoante. Ali estava a mágica. A sonolência podia ser atingida por uma repetição monótona de excitações verbais; da mesma forma, por excitações de alta intensidade.
Depois do entorpecimento, o ditador, de repente, dava uma parada brusca. A massa despertava como que tocada pela expectativa do que viria a seguir. Hitler voltava com contundência redobrada. A multidão caía num estado de paroxismo e exaltação furiosa. O tóxico sonoro dava certo. Aliás, há autores que identificam no grito ritmado, no canto ritmado, uma boa técnica para a execução de tarefas penosas. Trata-se de uma técnica com certo efeito hipnótico que suprime ou diminui, pelo menos temporariamente, a sensibilidade.
Os trabalhos gigantescos da antiguidade, do tipo construção de pirâmides, por falta de meios mecânicos, eram executados ao som de cânticos ritmados. A música é, portanto, um eficaz tóxico sonoro, e na seara política, os hinos, os ritmos da moda, recheados de estribilho, cativam as pessoas. Na vida militar, a música, o ritmo, são usados para gerar ações sobre o inconsciente. Assim Sergei Tchakhotine (1883-1973), um dos principais teóricos da psicologia das massas, descreve o discurso de Hitler em Nuremberg, em 15 de setembro de 1938:
Sua entrada na sala do Congresso era precedida de uma manifestação sonora – antes que musical – fora do comum. Sobre o fundo de uma música wagneriana, ouvia-se um rufar assustador, pesado, lento, de tambores e um passo duro, martelando o solo, não se sabe com que tinidos e com que respiração ofegante de corpos de tropa em marcha. Esse ruído ora aumentava, ora se afastava e devia provocar, nos milhões de ouvintes, com o coração angustiado pela espera da suprema catástrofe, um sentimento de fascinação e medo, desejado pelos encenadores. Parecia (num grau mais forte) o efeito da música de tribos selvagens. Era a propaganda hitlerista cem por cento, uma tentativa de intimidar, de violentar psiquicamente os milhões de ouvintes, em todos os países do mundo: devia-se imaginar vivamente a pesada máquina de guerra alemã em marcha, pisando tudo, destruindo, ameaçando, devia-se imaginar bem concretamente e... não se mexer.79