A COMUNICAÇÃO MUDOU, MAS O GOVERNO LULA NÃO PERCEBEU

O governo Lula lançou recentemente uma campanha publicitária voltada ao público nordestino, com o objetivo de recuperar popularidade em sua principal base eleitoral. A peça lista obras realizadas na região, a partir da transposição do Rio São Francisco, e utiliza uma paródia da música “Isso Aqui Tá Bom Demais”, de Dominguinhos e Nando Cordel, adaptada com versos que exaltam a região: “O Nordeste é muito bom. O Nordeste é bom demais”. Imaginou-se, sob orientação do ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira, que o forró cairia bem nesse momento em que as festas juninas aquecem a alma nordestina.

Mas a questão central permanece: essa campanha surtirá efeito? Conseguirá reverter a queda de popularidade de Lula na região? A hipótese, para este analista, é improvável. E a razão é clara: o modelo clássico de comunicação foi superado, enquanto governos, empresas e instituições ainda insistem em aplicá-lo como se nada houvesse mudado.

O modelo tradicional de comunicação, baseado em uma sequência linear — fonte, codificador, mensagem, canal, decodificador e receptor — tornou-se obsoleto. O advento das redes sociais alterou radicalmente essa lógica. A comunicação deixou de ser unidirecional (do emissor para o receptor) e passou a ser multidirecional, com receptores que agora também produzem conteúdo, criando um ecossistema de mídia participativa.

Esse novo contexto transforma completamente o processo comunicacional. Em vez de uma única fonte de informação reconhecida, como a mídia tradicional, surgem milhares de emissores simultâneos. Isso gera uma profusão de mensagens — muitas delas confusas, outras deliberadamente falsas — criando um ambiente de faroeste digital, para o qual o modelo clássico não oferece resposta adequada. Likes, viralizações, cliques e engajamentos passaram a ser os novos critérios de sucesso comunicacional.

Além disso, os antigos codificadores — jornalistas, publicitários, políticos, empresários — agora competem com o público em geral, com algoritmos, com robôs e com inteligências artificiais. A comunicação tornou-se interativa e caótica. O receptor já não é mais o paciente passivo da chamada “teoria da agulha hipodérmica”, que se curava com uma dose de informação ministrada pela mídia tradicional. Essa teoria, proposta por Claude Shannon e Warren Weaver, foi engolida pela revolução digital.

Mesmo ciente das mudanças sociais e culturais, o Governo Lula 3 ainda aposta no modelo tradicional de comunicação. Sidônio Palmeira tem cobrado dos 38 ministros maior empenho na divulgação dos feitos governamentais, exigindo harmonia na linguagem e prestação de contas à população. Lula, por sua vez, atribui sua queda de popularidade à deficiência das estratégias comunicacionais dos ministérios.

Ambos, no entanto, parecem ignorar o essencial: o público contemporâneo não é mais passivo. Ele quer participar, interagir, contestar. Como advertia John Stuart Mill, a ausência de participação ativa transforma os cidadãos em meros objetos, manipuláveis como gado conduzido sem autonomia. As novas gerações rejeitam a postura de espectador e reivindicam o protagonismo.

As campanhas publicitárias do governo, portanto, tendem a ter impacto limitado. A crença de que a popularidade será restaurada por peças publicitárias bem-produzidas revela apego a uma lógica ultrapassada. A imagem negativa do governo, inclusive, tem sido reforçada por outro fenômeno contemporâneo: a retroalimentação entre redes sociais e a mídia tradicional. Muitas pautas dos grandes jornais são hoje moldadas pelas redes, onde escândalos são amplificados, versões distorcidas ganham força, e fake news se proliferam com facilidade.

Por fim, é preciso destacar um fenômeno marcante de nosso tempo: a crescente organicidade da sociedade civil. Os cidadãos organizam-se em coletivos, associações, movimentos e grupos sociais diversos. Participam de sindicatos, comunidades religiosas, fóruns acadêmicos e ambientais. As sementes da democracia participativa florescem em múltiplos espaços, fortalecendo uma cidadania ativa e vigilante.

O Brasil avança em sua marcha civilizatória. A sociedade amadurece e aprende a distinguir verdade de mentira, realidade de manipulação. Campanhas publicitárias, por mais bem elaboradas, não operam milagres. A crença de que o êxito político depende apenas da boa comunicação — ainda que afinada ao ritmo do forró — ignora as profundas transformações no ecossistema informacional contemporâneo.

O governo Lula parece não enxergar — ou talvez prefira não ver — essas mudanças. E nisso reside seu maior erro.

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