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A paisagem paulistana tem um jeito cruel de nos desmentir. A cidade que se vende como vitrine de modernidade — arranha-céus, centros financeiros, shoppings centers e polos tecnológicos — também exibe barracas improvisadas, cobertores úmidos e sacolas que guardam a biografia inteira de alguém. Em São Paulo, riqueza e carência não se alternam; elas se encostam.
Os números, quando chegam, não aliviam: eles acendem. Dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (UFMG), baseados no CadÚnico, já mostraram como o estado concentra uma fatia gigantesca da população de rua do país. É um espelho rachado do nosso pacto social: o reflexo mais cruel da tragédia urbana, onde a prosperidade não impede a queda — e, às vezes, a acelera.
A contradição explode quando a economia entra em cena. Em valores correntes, o PIB do Estado de São Paulo em 2024 alcançou R$ 3,5 trilhões, segundo dados divulgados pela Fundação Seade. É um montante que, convertido, coloca a economia paulista na mesma ordem de grandeza de países inteiros — e aqui mora o paradoxo mais duro: a força do PIB não se traduz automaticamente em força do abrigo. Para comparação de escala, o Banco Mundial registra o PIB nominal da Argentina em 2024 na casa de US$ 633 bilhões (R$ 3,3 trilhões). São grandezas que ajudam a dimensionar o contraste: uma locomotiva econômica convivendo com uma multidão sem endereço, sem banheiro, sem chave.
A rua, porém, não é apenas um “lugar”. É um destino fabricado por portas que se fecham em série. A porta do aluguel, empurrada para cima por preços e por uma cidade que especula com o próprio chão. A porta do emprego, cada vez mais frágil, intermitente, informal. A porta da saúde mental e do cuidado, quase sempre tardia. A porta da família, que quando se rompe deixa o indivíduo sem rede. A cada porta que bate, um corpo escorrega para o asfalto — e o asfalto, em São Paulo, tem a frieza de uma instituição: registra sem acolher, empurra sem resolver.
Na metrópole, o drama se espalha como mapa de calor. O centro concentra e expõe, mas as bordas alimentam o fluxo. A rua vira “solução” provisória que se eterniza. E, como toda eternidade na pobreza, ela produz linguagem própria: o cobertor como território, a barraca como casa mínima, a sacola como arquivo — e o olhar de quem passa, ora apressado, ora culpado, quase sempre anestesiado.
É nesse cenário que emerge uma figura que a cidade já conhece pelo nome e pelo gesto: o padre Júlio Lancellotti. Vigário episcopal do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, ele se tornou o rosto mais persistente — e mais incômodo — na defesa dessa população, cobrando políticas públicas, denunciando violências, distribuindo cuidado onde o Estado nem sempre chega. Sua atuação é uma espécie de termômetro moral: quando a cidade endurece, ele aparece; quando a prefeitura varre, ele retorna; quando a indiferença cresce, ele insiste. Não é só caridade: é confronto com a normalização do abandono.
A política pública, por sua vez, oscila entre duas tentações igualmente insuficientes: a assistência que não vira saída (a sopa que não vira moradia) e a ordem que não vira humanidade (a “limpeza” que só desloca a miséria para outra calçada). Enquanto isso, o cotidiano segue produzindo novas quedas — e a metrópole, com toda sua inteligência logística, continua tropeçando no essencial: como devolver teto, documento, trabalho e dignidade a quem foi expulso do contrato social.
São Paulo gosta de se definir por superlativos. Maior isso, maior aquilo. Talvez esteja na hora de admitir outro superlativo, o mais incômodo: a maior economia do país abriga a maior vitrine da nossa falência civilizatória. E a pergunta que fica, teimosa, é menos econômica do que moral: que tipo de grandeza é essa que cresce por cima de tanta gente deitada?