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Há cem anos, uma tropa esfarrapada, faminta e movida pelo sonho de derrubar as velhas estruturas oligárquicas atravessava o sertão brasileiro como um vendaval. Era a Coluna Prestes, talvez o mais impressionante movimento político-militar da história republicana. Em 5 de fevereiro de 1926, às 8h10 de uma sexta-feira, a Coluna entrou em Luís Gomes, no extremo oeste do Rio Grande do Norte, cidade serrana encravada na divisa com Paraíba e Ceará. Cem anos depois, o episódio ainda vive na memória da terra onde nasci.
A Coluna não encontrou resistência. Não houve tiros, barricadas ou mortos. Mas houve medo. O povo se recolheu às casas. Muitos fugiram para o mato carregando redes, panelas e pequenos pertences. Outros fecharam portas e janelas, rezando para escapar tanto do saque dos revolucionários quanto da vingança posterior das forças governistas. O silêncio tomou conta das ruas.
Vieram os homens de Luís Carlos Prestes, Miguel Costa, Cordeiro de Farias, Siqueira Campos, João Alberto, Ari Salgado e Djalma Dutra. Não estava Juarez Távora, preso semanas antes nas proximidades de Teresina. A Coluna seguia seu percurso épico pelo interior do Brasil, desafiando tropas oficiais e expondo a fragilidade do poder central sobre os sertões esquecidos.
Em Luís Gomes repetiram-se as chamadas “ações revolucionárias”: requisições forçadas, saques de armazéns e ocupação de prédios públicos. O episódio mais lembrado até hoje é o saque ao armazém de secos e molhados de “Seu” Gaudêncio, meu pai, um dos comerciantes mais conhecidos da região. Seu estabelecimento era o mais abastecido da cidade. Dali saíam tecidos, mantimentos, remédios, ferramentas e mercadorias vindas do litoral para abastecer o sertão.
Djalma Dutra, assinando em nome de Prestes, requisitou por escrito grande quantidade de cereais e tecidos. Queriam brim cáqui para fardamento, chapéus, sapatos e panos vermelhos destinados aos lenços usados pelos revoltosos. A requisição, feita num pedaço de papel, prometia ressarcimento “após a vitória da Revolução”. O documento ficou guardado por décadas num velho cofre esverdeado da loja. Perdeu-se com o tempo, após a morte do “velho”.
Meu pai contava a história com uma mistura de temor e ironia. Viu os homens levarem farinha, latas de carne, medicamentos e até o fuzil antigo pendurado atrás do balcão. Um dos soldados deixou sobre um caixote uma moeda de prata — gesto que lhe pareceu mais insulto do que pagamento.
Segundo o grande folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo, em sua “História da República do Rio Grande do Norte”, os prejuízos causados em Luís Gomes chegaram a 23:036$096 réis (vinte e três contos, trinta e seis mil e noventa e seis réis) — quantia elevada para uma pequena cidade sertaneja da época. Em São Miguel, os danos foram ainda maiores.
Papai chegou a ser preso por Siqueira Campos. Exigiram dois contos de réis para libertá-lo. Graças à intervenção de conhecidos e à sua proverbial diplomacia sertaneja, saiu após o pagamento de cinquenta mil réis. Gostava de repetir uma pequena cena que revela o clima daqueles dias. Curioso, aproximou-se da Agência Postal Telegráfica, onde o Estado-Maior almoçava. Observava de perto os líderes revolucionários quando ouviu a voz de Prestes:
— “O jovem quer alguma coisa?”
Assustado, escapuliu discretamente.
Décadas depois, outro episódio fecharia esse círculo da memória. Em 1964, no início das obras da barragem de Boa Esperança, no rio Parnaíba, encontrei o Marechal Cordeiro de Farias, então ministro do Interior do governo Castello Branco. Eu iniciava minha carreira jornalística. Contei-lhe a história de meu pai e da passagem da Coluna por Luís Gomes.
— “Luís Gomes? Na fronteira com a Paraíba? Eu me lembro!”
Não recordava o episódio específico, mas lembrava da cidade. Ao ouvir o relato, soltou uma gargalhada larga, dessas que parecem dissolver as durezas da História.
A Coluna Prestes percorreu mais de 25 mil quilômetros entre 1925 e 1927. Caminhou cerca de 40 quilômetros por dia. Utilizou mais de 100 mil cavalos, consumiu milhares de reses e travou dezenas de combates. Morreram centenas de soldados e oficiais. Foi uma marcha monumental, mistura de aventura militar, rebeldia política e epopeia sertaneja.
Mas, para além dos números grandiosos, a História também se faz de pequenas cidades, de armazéns saqueados, de famílias escondidas no mato e de comerciantes assustados diante do inesperado. Em Luís Gomes, a Coluna Prestes não deixou apenas prejuízos materiais. Deixou uma memória coletiva. Um século depois, ela ainda atravessa as ruas da cidade como uma sombra comprida do passado republicano brasileiro.
Para mim, filho daquela terra alta do oeste potiguar, a passagem da Coluna não é apenas um episódio dos livros de História. É também uma lembrança de família. Uma história ouvida ao pé da mesa, repetida entre causos sertanejos, e que ajuda a compreender como os grandes movimentos nacionais alcançam até os mais distantes rincões do País.