A VIOLÊNCIA POLÍTICA

A violência política voltou a ocupar as ruas — e, em muitos lugares, também as redes — como se fosse um idioma global. De um lado, a ultradireita recruta militantes em torno de nacionalismo, ressentimento cultural, antipolítica e teorias conspiratórias. Do outro, a ultraesquerda amplia núcleos que misturam anticapitalismo, "antifascismo" militante e disposição para o confronto. O resultado é um fenômeno de espelho: os extremos crescem em pares, alimentando-se mutuamente, num ciclo em que cada radicalização serve de "prova" da ameaça do adversário.

O noticiário oferece sintomas quase pedagógicos. Na França, por exemplo, a morte de um ativista de direita na cidade de Lyon, após confronto entre grupos rivais, reacendeu o debate sobre "milícias" políticas e a capacidade do Estado de conter a escalada. E, no Reino Unido, uma investigação sobre distúrbios comunitários na cidade de Leicester apontou a desinformação como "acelerante central" da violência — um lembrete de que o fósforo, hoje, muitas vezes é digital.

Por trás dos episódios locais há tendências estruturais. Bases de dados e relatórios internacionais têm registrado maior atividade de violência política e expansão de atores armados não estatais em diversos contextos, com flutuações por país e região. Ao mesmo tempo, os grandes conflitos e suas ondas de choque — da Europa Oriental ao Oriente Médio e à África (guerra na Ucrânia, conflitos em Gaza e na Cisjordânia, guerra civil no Sudão, guerra civil em Mianmar, Insurgências em Mali, Burkina Faso e Niger, conflitos no leste do Congo e guerras civil — mantêm elevado o patamar global de instabilidade e "normalizam" a linguagem da força como método de resolução de disputas.

Por que os extremos crescem justamente "com exceção das ditaduras"? Porque, nas ditaduras, a regra é o monopólio da violência: a repressão impede que milícias rivais se consolidem como atores autônomos. O radical não precisa formar "exército" paralelo quando o próprio Estado já é o porrete — e, quando surgem grupos, eles tendem a operar na clandestinidade, com alta punição e baixa visibilidade. Em democracias (mesmo doentes), a pluralidade abre espaço para mobilização; a liberdade, quando não vem acompanhada de instituições robustas, também abre brecha para o vale-tudo.

Há ainda quatro motores principais dessa expansão.

1) Ansiedade material e medo de queda social. Inflação, precarização e desigualdade produzem sensação de humilhação. A política deixa de ser promessa e vira acusação. Extremistas oferecem uma recompensa simples: culpados identificáveis (imigrantes, elites, "globalistas", "capital", "sistema") e uma saída emocional.

2) Crise de representação e descrédito das mediações. Partidos, sindicatos, imprensa e parlamentos perderam capacidade de organizar conflitos. Relatórios de institutos de pesquisa internacionais descrevem o avanço da polarização e do processo de autocratização em diversas regiões, corroendo confiança e empurrando a disputa para fora das regras do jogo. Quando o centro perde densidade, as bordas ganham oxigênio.

3) Ecossistemas digitais que premiam fúria. Plataformas convertem indignação em alcance. Narrativas extremadas viajam mais rápido que a verificação; bolhas constroem inimigos; a desinformação vira arma de mobilização — e, em momentos críticos, pode funcionar como gatilho para violência presencial.

4) Importação de repertórios de guerra para a política doméstica. A estética militar, a linguagem apocalíptica e a ideia de "inimigo interno" descem do noticiário internacional para as disputas nacionais. O terrorismo e o extremismo ideológico também se adaptam: relatórios do Global Terrorism Index( Um estudo que analisa o impacto do terrorismo em 163 países que cobrem 99,7% da população mundial) destacam a persistência de ameaças variadas e a mutação de perfis e motivações, o que dificulta prevenção e aumenta a volatilidade.

A pergunta decisiva é: isso é "fase" ou "novo normal"? A resposta depende do fôlego das instituições. Onde o Estado garante segurança com legalidade, pune violentos com rapidez e protege a competição democrática, os extremos podem até fazer barulho, mas não viram regra. Onde o Estado falha — ou escolhe um lado — os "exércitos" crescem, porque passam a parecer a única forma de proteção.

No fundo, a violência política prospera quando a sociedade aceita uma ideia perigosa: a de que o adversário não é um concorrente, é uma ameaça existencial. Quando essa crença se instala, a democracia deixa de ser arena e vira trincheira. E trincheira, como se sabe, não combina com voto: combina com medo, rancor e pólvora.

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