LULA X FLÁVIO: OS ATIVOS E PASSIVOS DE UMA ELEIÇÃO ABERTA

A 196 dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro de 2026, a sucessão presidencial ainda não comporta profecias. O calendário eleitoral já está em vigor, mas as candidaturas formais ainda dependerão das convenções e registros. No terreno das sondagens, porém, o quadro mostra uma disputa apertada: Lula segue competitivo e lidera cenários de primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro aparece colado em simulações de segundo turno. Pesquisa Datafolha apontou 46% para Lula e 43% para Flávio, dentro da margem de erro, com rejeições também altas para ambos: 46% no caso de Lula e 45% no de Flávio. Outra pesquisa, AtlasIntel/Bloomberg, também registrou empate técnico entre os dois num eventual segundo turno.

É nesse ambiente que se delineiam os fatores que podem empurrar a balança para um lado ou para outro.

A favor de Lula, pesa, antes de tudo, a força da máquina presidencial e a visibilidade de quem governa. Presidente em exercício tem vitrine, agenda, caneta e capacidade de transformar inaugurações, programas e anúncios em ativos eleitorais. Mesmo com a desaceleração da economia, o governo ainda pode exibir números que, em campanha, funcionam como argumento de credibilidade: o PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025, e a taxa de desemprego ficou em 5,4% no trimestre encerrado em janeiro de 2026, o menor patamar da série comparável iniciada em 2012. São dados que permitem ao lulismo sustentar a narrativa de que, apesar dos tropeços, o país não está em recessão nem em colapso social.

Outro ponto a favor de Lula é sua experiência política. Num país de memória institucional rarefeita, ele segue sendo, para uma fatia expressiva do eleitorado, o nome mais conhecido, mais testado e mais capaz de dialogar com os segmentos populares. A lembrança de programas sociais, o vínculo afetivo com o Nordeste e a imagem de liderança internacional ainda constituem patrimônio eleitoral relevante. Além disso, parte do eleitorado moderado poderá ver em Lula, mesmo com desgaste, uma opção de previsibilidade diante de um adversário identificado com o sobrenome Bolsonaro e com a turbulência política dos últimos anos.

Contra Lula, contudo, pesa o ônus clássico de todo governante: tudo o que não funciona cai no colo do presidente. Saúde precária, sensação de insegurança, inflação sentida no supermercado, juros altos, fadiga com impostos e ruídos na articulação com o Congresso compõem um passivo real. A economia cresceu, sim, mas perdeu fôlego; o quarto trimestre de 2025 avançou apenas 0,1%, e os juros seguem em patamar muito elevado, fator que restringe crédito, consumo e investimento. A percepção do cidadão comum nem sempre acompanha os indicadores agregados; ela se forma no preço do alimento, na conta da farmácia e na insegurança das ruas.

A isso se somam os escândalos e crises periféricas que acabam contaminando o centro do poder. O caso Master, a roubalheira contra aposentados do INSS, a sucessão de atritos institucionais e as investigações envolvendo pessoas do entorno político e familiar do presidente alimentam uma atmosfera de desgaste moral. Ainda que nem tudo recaia diretamente sobre Lula do ponto de vista jurídico, eleitoralmente o dano é outro: o eleitor tende a responsabilizar o chefe do Executivo pelo ambiente geral do governo. Em política, a percepção muitas vezes pesa tanto quanto a prova.

A favor de Flávio Bolsonaro, o primeiro ativo é o sobrenome. No campo conservador, "Bolsonaro" continua sendo marca de alta lembrança, forte capilaridade digital e grande mobilização emocional. Flávio herda a musculatura do bolsonarismo sem carregar, na mesma intensidade do pai, o estilo mais explosivo de confronto verbal. Pode vender-se como versão mais institucional, mais polida e mais palatável ao centro-direita. Seu crescimento nas sondagens depois do endosso público do ex-presidente mostra que ele conseguiu converter herança familiar em densidade eleitoral concreta.

Outro trunfo de Flávio é representar o polo oposicionista num momento em que parte do país demonstra cansaço com o governo federal. Ele pode capturar o voto de protesto, reunir antipetistas históricos e se apresentar como alternativa à máquina lulista. Segurança pública, combate à corrupção e discurso de autoridade continuam sendo temas férteis para a direita, sobretudo se a campanha conseguir associar Lula à leniência com a desordem, ao loteamento político e à erosão ética do aparelho estatal.

Contra Flávio, porém, há um peso nada desprezível. O primeiro é a associação direta com os fantasmas do bolsonarismo. O 8 de janeiro de 2023 permanece como cicatriz institucional, e qualquer candidatura ancorada no sobrenome Bolsonaro terá de enfrentar a memória da radicalização, da retórica golpista e do desgaste internacional produzido por aqueles atos. Ainda que Flávio não seja o pai, a biografia eleitoral não lhe permite escapar da sombra familiar. Para o eleitorado moderado, essa vinculação pode funcionar como alarme.

Há também o passivo fluminense. No Rio de Janeiro, os casos ligados à antiga estrutura política da família — entre eles a rachadinha, tema que persiste no imaginário público apesar das decisões judiciais que esvaziaram partes da investigação — tendem a ser explorados com intensidade. Em campanha, adversários não discutem apenas sentenças; exploram narrativas, símbolos, desconfianças. Flávio poderá argumentar perseguição política, mas continuará obrigado a administrar um terreno minado por suspeitas que ferem justamente o discurso moralizador que o bolsonarismo sempre brandiu.

No fim, a eleição poderá ser menos um concurso de virtudes do que uma disputa de rejeições. Lula tem a seu favor a experiência, a máquina e alguns indicadores sociais; contra si, carrega o peso do governo, do custo de vida, das crises laterais e da fadiga de imagem. Flávio tem a seu favor a marca conservadora, o voto oposicionista e o impulso da família Bolsonaro; contra si, carrega a memória do 8 de janeiro, o desgaste ético do clã e o temor de que o país volte a flertar com a guerra política permanente.

A campanha de 2026, assim, deverá ser decidida por uma pergunta simples e brutal: quem conseguirá convencer o eleitor de que seus defeitos são menores que os defeitos do adversário? Numa eleição aberta, a vitória não será de quem parecer perfeito. Será de quem parecer menos arriscado para o Brasil.

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