O ÓDIO QUE NÃO MORREU

Leio na Folha de São Paulo (19/01/2026): “Discurso de ódio contra nordestinos cresceu 821% na eleição de 2022”.

É de pasmar — e de alarmar — o crescimento do discurso de ódio dirigido aos nordestinos no Brasil. Estudo citado pela Folha e desenvolvido pelo grupo Interfaces, da Universidade Federal de São Carlos, revela que esse tipo de discurso teve extraordinário crescimento em 2022, sobretudo em ambientes digitais frequentados por segmentos das elites econômicas e culturais. Imaginava-se que tal preconceito estivesse sepultado pela história. A realidade mostra o contrário: ele está vivo, organizado e vocal.

O dado não é apenas estatístico; é sintomático. Ele aponta para uma regressão civilizatória num país que se construiu sob o signo da mistura, da diversidade e da convivência entre diferenças. O Brasil, frequentemente celebrado como nação formada pela convergência de povos indígenas, africanos e europeus, vê ressurgir uma narrativa excludente que tenta hierarquizar brasileiros com base em origem regional, renda ou padrão cultural.

Por que, em pleno meado da terceira década do século XXI, uma onda discriminatória que se acreditava banida volta a ocupar espaço público? A resposta passa por múltiplos vetores. O primeiro deles é a polarização política extrema, que transformou identidades regionais em marcadores ideológicos. O Nordeste, historicamente mais dependente de políticas públicas e com forte tradição de voto em projetos de cunho social, passou a ser tratado, por setores radicais, como "responsável" por derrotas eleitorais. O preconceito, então, ganha verniz político e se apresenta como suposta crítica racional, quando é puro ressentimento.

Outro fator decisivo é o ambiente digital. As redes sociais não criaram o preconceito, mas o amplificaram. Algoritmos premiam indignação, simplificação e ataque. Discursos antes confinados a círculos privados passaram a circular sem freio, legitimados por bolhas que reforçam convicções e desumanizam o outro. A agressão vira performance; o ódio, moeda de pertencimento.

Há ainda um componente estrutural mais profundo: o medo da perda de privilégios. Parte das elites reage de forma hostil à ampliação do acesso à universidade, ao consumo, à mobilidade social e à visibilidade cultural do Nordeste. O avanço simbólico e material de grupos historicamente marginalizados é lido como ameaça. O preconceito surge como mecanismo defensivo de uma ordem social que se sente questionada.

Esse discurso, porém, não é apenas ofensivo — é perigoso. Ele corrói a ideia de nação, fragiliza a democracia e naturaliza desigualdades. Quando se aceita que brasileiros sejam classificados como "menos capazes", "menos produtivos" ou "menos civilizados" por sua origem, abre-se caminho para exclusões mais graves, inclusive no campo dos direitos.

É preciso dizer com clareza: o Nordeste não é problema; é parte essencial da solução brasileira. Sua história de resistência, sua força cultural, sua contibuição econômica e sua vitalidade humana ajudaram — e ajudam — a sustentar o país. Atacar nordestinos é atacar o próprio Brasil.

O crescimento do discurso de ódio revela, portanto, não a falência de uma região, mas a crise moral de uma sociedade que ainda não resolveu suas tensões históricas. Combater esse fenômeno exige mais do que indignação episódica. Requer educação, responsabilização das plataformas digitais, compromisso das lideranças políticas e, sobretudo, a reafirmação de um princípio básico: não há democracia possível onde a dignidade humana é regionalizada.

O Brasil só será exemplo de civilidade para o mundo quando compreender, de forma madura, que sua diversidade não é fraqueza — é sua maior força.

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