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A quatro meses da eleição presidencial de 4 de outubro, um dado da pesquisa Genial/Quaest acende o sinal amarelo no sistema político brasileiro: 43% dos eleitores admitem que ainda podem mudar de voto. Em outras palavras, quase metade do eleitorado se declara disponível para rever escolhas, trocar preferências ou até aderir a candidaturas que ainda nem ganharam densidade nacional. Trata-se de um contingente gigantesco. O suficiente para virar cenários, alterar prognósticos e desmontar certezas aparentemente consolidadas.
A fotografia do momento eleitoral, portanto, está longe de ser definitiva. O quadro atual lembra que campanhas eleitorais não são linhas retas. São processos sujeitos ao imponderável — essa força invisível que atravessa a política, modifica humores sociais e transforma candidatos improváveis em protagonistas.
O eleitor contemporâneo tornou-se menos fiel e mais volátil. A antiga identidade partidária perdeu vigor. O cidadão já não vota automaticamente por tradição familiar, por alinhamento ideológico rígido ou por fidelidade histórica. O voto passou a ser mais pragmático, condicionado às circunstâncias da economia, ao preço dos alimentos, à sensação de segurança, ao emprego, ao ambiente emocional do País e, sobretudo, à percepção de esperança.
Esse fenômeno explica por que pesquisas eleitorais precisam ser interpretadas com prudência. Elas captam tendências do presente, não antecipam o futuro. São retratos do instante. Não decretos do destino político.
O Brasil, aliás, acumula exemplos eloquentes de mudanças repentinas de rumo. Em 1989, Fernando Collor emergiu como o “caçador de marajás” e atropelou estruturas partidárias tradicionais. Em 2002, Lula suavizou seu discurso, lançou a “Carta ao Povo Brasileiro” e conquistou setores antes resistentes ao PT. Em 2018, Jair Bolsonaro cresceu impulsionado pelas redes sociais, pelo antipetismo e pelo sentimento antissistema. Em todos esses casos, o ambiente eleitoral sofreu mutações decisivas ao longo da campanha.
O imponderável pode surgir de múltiplas formas: um escândalo político, uma crise econômica, um debate televisionado, um erro de comunicação, uma denúncia inesperada, um problema de saúde envolvendo candidatos, um conflito internacional que afete preços internos ou até uma onda emocional produzida pelas redes digitais. Hoje, a velocidade das plataformas tecnológicas potencializa mudanças abruptas de percepção. Uma narrativa viral pode alterar o eixo do debate público em poucas horas.
A volatilidade eleitoral decorre também da fragmentação da opinião pública. O País vive sob intensa polarização, mas essa polarização convive com um eleitorado cansado do confronto permanente. Muitos brasileiros parecem desejar menos radicalismo e mais soluções concretas para seus problemas cotidianos. Entre o “nós contra eles” e a vida real, há uma distância que cresce silenciosamente.
Os 43% revelados pela pesquisa Genial/Quaest representam justamente esse território movediço. Não são apenas indecisos clássicos. São eleitores permeáveis, atentos às circunstâncias, observando candidatos, comparando discursos e aguardando sinais mais convincentes. É o espaço onde campanhas podem crescer — ou desmoronar.
Nesse contexto, a eleição de 2026 poderá ser menos ideológica e mais emocional. O candidato que conseguir transmitir confiança, estabilidade e capacidade de governar terá vantagem competitiva relevante. A sociedade parece menos disposta a aventuras retóricas e mais interessada em respostas objetivas para inflação, segurança, saúde e qualidade de vida.
A política brasileira continua submetida à lógica do inesperado. O imponderável não é detalhe periférico; tornou-se elemento central das disputas contemporâneas. Como ensinava o velho marketing político, eleição não termina enquanto a última urna não é apurada. E quando quase metade do eleitorado admite poder mudar de posição, qualquer previsão categórica se transforma em exercício de risco.
A verdade é simples: faltando meses para a eleição, o jogo ainda está aberto.