VIOLÊNCIA POLÍTICA: UM MAL QUE AMEAÇA À DEMOCRACIA

No dia 10 de setembro passado, o influenciador conservador norte-americano Charlie Kirk foi assassinado a tiros enquanto discursava em uma universidade de Utah. Fundador da organização Turning Point USA, Kirk era um dos nomes mais influentes entre jovens conservadores dos Estados Unidos. Seu assassinato foi classificado pelas autoridades como crime político, gerando repercussão imediata: de um lado, aliados inflamaram sua imagem de mártir; de outro, surgiram apelos por moderação no discurso.

Outros crimes mostram o extremismo radical nos EUA, como se pode ver na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, que deixou mortos e feridos; o ataque à casa da então presidente da Câmara, Nancy Pelosi, em 2022; e a tentativa de assassinato do ex-presidente Donald Trump em 2024. Todos esses casos reforçam a constatação de que a polarização extrema gera terreno fértil para a violência política.

Na Alemanha, em 2019, o prefeito de Kassel, Walter Lübcke, foi assassinado a tiros por um militante neonazista após defender a política de acolhimento de refugiados. Em 2022, um candidato foi ferido em um ataque a tiros durante comício. Parlamentares relatam ameaças constantes e vivem sob proteção reforçada, evidenciando que até lideranças locais estão sob risco.

Na França, em 2017, o então candidato Emmanuel Macron foi alvo de uma tentativa frustrada de atentado. Já em 2020, já presidente, foi esbofeteado em público, em gesto simbólico de hostilidade. Em 2023, o prefeito de Saint-Brevin-les-Pins renunciou após sua casa ser incendiada por opositores de um centro de acolhimento a migrantes. O país tem convivido com manifestações cada vez mais violentas contra autoridades.

Esses exemplos mostram que a violência política deixou de ser exceção para tornar-se risco estrutural, mesmo em democracias maduras.

Se no passado a praça pública era o palco central da disputa, hoje o embate migrou para o território digital. Plataformas como Facebook, X e WhatsApp transformaram-se em arenas de linchamento simbólico. A lógica das redes – que premia o engajamento pelo choque e pela fúria – favorece a propagação de boatos, insultos e incitações. O discurso racional perde espaço para a retórica inflamável.

O Brasil também conhece de perto essa chaga. Ao longo da história do Brasil, a natureza dos crimes políticos evoluiu, passando da violência direta em períodos autoritários para crimes de corrupção e abuso de poder na democracia, ao lado da persistência da violência política, especialmente em anos eleitorais. 

No passado, a violência e atentados marcaram o ciclo da ditadura militar (1964-1985), um ciclo de assassinatos, tortura, desaparecimentos forçados e execuções de opositores políticos cometidos pelo regime. A Lei da Anistia de 1979 anistiou tanto opositores quanto agentes do Estado, gerando controvérsia por não permitir a punição de militares por crimes graves como tortura e homicídio.

Mas a violência política, no Brasil, vem de longe, com assassinatos políticos de figuras públicas sendo alvos de ataques, como o senador Pinheiro Machado (1915), no Rio de Janeiro; o atentado da Rua Tonelero (1954), que visava o jornalista Carlos Lacerda, opositor do então presidente Getúlio Vargas; o atentado do Aeroporto dos Guararapes (1966), quando uma bomba matou o almirante Nelson Fernandes e o jornalista Edson Regis (eu estava lá). Na revolução de 1930, tivemos a morte de João Pessoa, candidato à vice-presidência, que serviu de estopim para a mobilização armada que resultou na revolução. 

Mais recentemente, crimes políticos de grande impacto foram cometidos, como os casos de corrupção e abuso de poder: a Operação Lava Jato, que investigou um grande esquema de desvio de dinheiro na Petrobras envolvendo políticos e empresários; o Mensalão (2005), escândalo que investigou a compra de votos no Congresso Nacional.

O fato é que a violência política tem aumentado, principalmente em anos eleitorais como em 2024. Neste ano, um estudo da Unirio registrou 76 mortos e 525 casos de ameaças e agressões, com destaque para o atentado contra Jair Bolsonaro (2018), então candidato à Presidência, alvo de uma facada durante um evento de campanha. Como se recorda. em setembro de 2018, o candidato foi esfaqueado durante um ato de campanha em Juiz de Fora, cena que correu o mundo, revelando que o ódio político já havia ultrapassado os limites das redes sociais e dos palanques.

Por seu papel na tentativa de liderar um golpe contra o Estado Democrático de Direito, o ex-presidente foi condenado à prisão pelo STF por 27 anos três meses por ter liderado a tentativa de golpe. A violência recente leva o país para o terreno de polarização radical, com pressão e contrapressão de simpatizantes do bolsonarismo e de grupos de esquerda e, certamente, o tema balizará o pleito de 2026. jurídico. 

Outro fato preocupante é o avanço de facções criminosas sobre as instituições públicas, especialmente em nível municipal, que tem sido apontado como uma das marcas dos crimes políticos contemporâneos no Brasil. O espaço de debate cede lugar ao ringue. Prefeitos de cidades pequenas, vereadores de oposição e candidatos de diferentes partidos tornam-se alvos de pistolagem, perseguição e ataques virtuais. Em períodos eleitorais, multiplicam-se relatos de intimidações, destruição de material de campanha e agressões motivadas por preferências partidárias.

Essa violência simbólica transborda para a vida real, com o eleitor se sentindo autorizado a agredir o vizinho por sua opção partidária, o militante autorizado a atacar fisicamente quem defende ideias contrárias, enquanto o político vê sua integridade ameaçada por hordas estimuladas por influenciadores irresponsáveis.

A democracia brasileira enfrenta um teste decisivo. Se aceitarmos a naturalização da violência política, corremos o risco de abrir caminho para regimes autoritários que se apresentam como "salvadores da ordem". A lição da história é clara: a violência política nunca fortaleceu a democracia; pelo contrário, sempre a corroeu.

A democracia se sustenta no conflito, mas um conflito mediado pela razão, pelo direito e pelo respeito. Quando o debate se transforma em guerra, todos perdem. Quando a política é violenta, a sociedade se torna refém do medo.

O Brasil precisa, mais do que nunca, reafirmar sua vocação democrática: resolver divergências pelo voto, não pelo ódio.

GT Marketing

Al. Iraé, nº 620, Cj. 124
Moema - São Paulo/SP
gt@gtmarketing.com.br
Links
Popular
Newsletter
Receba os últimos artigos e notas de destaque