CAMPANHA NÃO É APENAS TV

Daqui a dois meses, em 15 de agosto, começará a programação eleitoral na televisão, no rádio e na Internet, oportunidade em que os candidatos apresentam seus programas a um eleitorado cada vez mais descrente das propostas e compromissos dos políticos. Muitos acham que sua visibilidade pública, por meio do uso de rádio e TV, será suficiente para garantir urnas cheias de votos, capazes de torná-los vitoriosos. Será que os programas eleitorais poderão mudar as atuais posições no ranking eleitoral dos principais candidatos à Presidência da República e aos governos estaduais?

Essa questão, que preocupa os chamados 'marqueteiros' e acende as conversas em todos os espaços nacionais, carece de uma análise que contemple não apenas as características do meio indutor de imagem, mas também uma leitura acurada do momento social, político e econômico vivido pela sociedade.

A maioria das pessoas tende a acreditar que a programação eleitoral será capaz de alterar as posições atualmente registradas pelas pesquisas, mas essa convicção nem sempre resiste a uma análise mais ampla do ambiente político e social, razão pela qual é provável que as coisas se mantenham como estão. Vejamos algumas razões.

Em primeiro lugar, cabe dizer que uma campanha eleitoral não é apenas fruto da visibilidade de um candidato, via TV ou rádio, principalmente nesta era das redes sociais. A internet consolidou-se como ferramenta de comunicação, alterando de forma permanente as regras do jogo. A campanha é um conjunto de elementos, fatores e ações que abarcam o discurso, a leitura dos anseios e expectativas dos eleitores, a mobilização e todo o potencial de eventos, a ação dos candidatos proporcionais e o trabalho dos cabos eleitorais, a força dos prefeitos e a grande energia dispensada por ações não governamentais, que formam um imenso sistema de pressão e influência.  Além disso, convém lembrar que cada campanha possui um clima próprio, diferente da temperatura da campanha anterior, mesmo que apresente nomes bastante conhecidos. Significa dizer que cada uma tem o seu horizonte definido, a sua cor básica. E o clima da disputa deste ano parece estar sendo moldado por um eixo central: o debate entre soberania nacional e alinhamento internacional, configurando uma das campanhas mais polarizadas da história política contemporânea.

De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sustentado o discurso da soberania. Sua posição tem sido a de defender a autonomia das instituições nacionais, a independência da política externa brasileira e a rejeição a iniciativas que possam ser interpretadas como interferência estrangeira em assuntos internos do país.

Do outro lado, setores da oposição liderados politicamente pelo candidato Flávio Bolsonaro defendem uma abordagem mais alinhada à visão de segurança adotada pelos Estados Unidos. Nessa perspectiva, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram classificadas pelo governo Trump como organizações terroristas. Tal decisão abre uma porta para uma eventual intervenção norte-americana no território brasileiro, sob a alegação de que o combate aos dois grupos é uma decisão do presidente “para proteger” os EUA. Para complicar, o novo tarifaço do governo Trump contra o Brasil está caindo no colo do senador.  Segundo o Instituto Quaest, 47% concordam que Flávio pediu a Trump novo tarifaço contra o Brasil. Ademais, o clã Bolsonaro, pela voz do filho 02, Eduardo, propõe mudar o PIX, unanimidade nacional, pelo “PIX norte-americano”, Zelle, um sistema privado mantido por um consórcio de grandes bancos americanos.

Na verdade, o candidato que mais se aproximar dos anseios das comunidades tenderá a ampliar seu espaço político e a influenciar o processo de decisão do eleitor. Nesse sentido, vale o ditado: água de morro abaixo, fogo de morro acima; quando o vento sopra numa direção, ninguém é capaz de detê-lo. Os dois candidatos que estão na liderança da corrida se assemelham aos ventos do tempo.

Há de se considerar, ainda, o nível de satisfação das classes sociais. Como pensa a classe média sobre o terceiro governo de Lula? E por que parcelas das camadas populares, mesmo beneficiadas por um vigoroso programa de distribuição de renda, vêm diminuindo seu apoio ao presidente, conforme atestam as pesquisas?

Cada classe dispõe de uma percepção diferenciada dos problemas; as classes C, D e E decidem com base em percepções mais ligadas ao cotidiano, enquanto outros segmentos orientam suas escolhas por expectativas de médio e longo prazos, ou seja, vive-se tanto a pressão do momento quanto o medo do futuro. Não se trata, apenas, de prometer. Nesse ponto, o eleitor volta sua atenção para o patrimônio de credibilidade de cada um. A promessa deverá ser embalada pelo efeito-demonstração, ou seja, como será cumprida a promessa e com que recursos. Alguns candidatos podem prometer muita coisa, mas os sinais emitidos, quando contrastados com sua falta de credibilidade, cairão por terra.

Se essas ferramentas forem colocadas numa balança, há de se concluir que o tempo de TV não pode ser considerado fator determinante de sucesso ou fracasso. E essa é a questão central. Alguns candidatos, principalmente na área proporcional, apostam sua eventual vitória à programação eleitoral na TV e no rádio, como se a exposição e a visibilidade pública fossem elementos de poder definitivo e arrebatador.  O programa eleitoral é apenas força auxiliar. Diz-se que, quando um cego guia outro cego, ambos caem no buraco. Esta é a ameaça que paira sobre profissionais de marketing e certos candidatos. É claro que o tempo de TV tem importância, principalmente quando se trata de comparar um candidato que dispõe de bom espaço e de outro, que conta com escassos minutos. Um largo tempo, usado de maneira inadequada, com formatos antiquados, elogios adjetivados, chavões batidos, será um bumerangue, voltando-se contra o próprio candidato.

Mais do que nunca, está provado que candidato que entra no gosto do povo não pode ser considerado mero sabonete a ser vendido pela TV nos monótonos programas eleitorais. Se a TV fizesse milagre, candidatos que dispuseram de amplos tempos de mídia eleitoral teriam obtido resultados bem mais expressivos, entre eles Ulysses Guimarães que, em 1989, recebeu apenas 4,7% dos votos para presidente.

GT Marketing

Al. Iraé, nº 620, Cj. 124
Moema - São Paulo/SP
gt@gtmarketing.com.br
Links
Popular
Newsletter
Receba os últimos artigos e notas de destaque