UM NOVO CAMINHAR NA ARENA POLÍTICA

A democracia contemporânea já não se contenta com o silêncio das massas. O tempo em que cidadãos eram conduzidos como rebanhos eleitorais, tangidos por favores, promessas vazias e cabrestos políticos, começa a perder espaço diante de uma sociedade mais vigilante, organizada e consciente de seus direitos. O Brasil, ainda que lentamente, caminha para o aperfeiçoamento de seus padrões políticos. E esse movimento não nasce apenas das estruturas tradicionais do poder. Ele brota, sobretudo, da vitalidade da sociedade civil organizada.

O filósofo inglês John Stuart Mill classificava os cidadãos em ativos e passivos. Os governantes, dizia ele, preferem os passivos; a democracia, porém, necessita dos ativos. A observação foi resgatada por Norberto Bobbio em sua obra O Futuro da Democracia, ao comparar os súditos a um rebanho de ovelhas que pastam resignadamente, mesmo quando o capim é escasso.

O Brasil, porém, começa a demonstrar que não deseja mais ocupar o papel de rebanho dócil. Há sinais evidentes de que parcelas crescentes da sociedade recusam a condição de passividade política. Os cidadãos querem participar, influir, pressionar, fiscalizar e interferir nos rumos da vida pública. Esse despertar cívico representa oxigênio novo nos pulmões eleitorais da República.

A mudança não ocorre por geração espontânea. Ela é impulsionada por organizações não governamentais, associações comunitárias, federações empresariais, sindicatos, movimentos sociais e múltiplos grupos organizados que passaram a ocupar espaços antes monopolizados pelas estruturas tradicionais do poder político. São novos polos de influência que empurram demandas sociais em direção aos Poderes da República, obrigando instituições a reagirem diante de uma sociedade mais exigente.

Esse fenômeno ajuda a explicar avanços importantes no sistema político-eleitoral brasileiro. O endurecimento das regras contra a compra de votos, o combate ao abuso do poder econômico, a fiscalização crescente das campanhas e o ativismo das Cortes Eleitorais revelam uma tentativa concreta de racionalizar o processo democrático. Muitos criticam a atuação da Justiça Eleitoral, classificando-a como interferência indevida na política. Mas é preciso reconhecer que, em boa parte dos casos, o objetivo central tem sido proteger a lisura do processo eleitoral e conter práticas que deformam a vontade popular.

A democracia não é um edifício acabado. É uma obra em permanente construção. E, como toda construção, avança entre progressos e recuos. O País ainda carrega doenças crônicas que corroem sua estrutura institucional: o fisiologismo, o inchaço da máquina pública, a cooptação política mediante distribuição de verbas, o clientelismo e a persistência de velhos feudos eleitorais. Há momentos em que o Brasil parece caminhar para trás, preso a práticas patrimonialistas herdadas de séculos anteriores.

Mas a direção histórica aponta para outro rumo. A sociedade brasileira torna-se mais crítica, mais conectada e menos tolerante com abusos explícitos. A expansão dos meios de informação, o fortalecimento das entidades civis e a crescente pressão da opinião pública passam a impor limites mais rigorosos ao comportamento das elites políticas.

Já não basta conquistar votos apenas pelo favor imediato ou pela manipulação emocional. O eleitor começa, ainda que de forma desigual, a exigir eficiência administrativa, responsabilidade fiscal, ética pública e compromisso social. A velha política do curral eleitoral vai sendo lentamente substituída por formas mais modernas de participação cidadã.

É claro que o processo está longe de ser concluído. Democracias jovens amadurecem sob tensão. O Brasil atravessa uma fase de transição em que convivem práticas arcaicas e mecanismos modernos de controle institucional. Mas negar os avanços seria ignorar os sinais de transformação que emergem da própria sociedade.

A democracia respira melhor quando os cidadãos deixam de ser espectadores passivos para se tornarem protagonistas ativos da vida pública. É exatamente isso que começa a ocorrer no País. A sociedade civil organizada injeta oxigênio nos pulmões eleitorais da Nação, ajudando a renovar práticas, aperfeiçoar instituições e fortalecer os alicerces republicanos.

A boa notícia é que o Brasil cidadão já começou a romper o cabresto.

 

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