Faltam poucos dias para 4 de outubro, mas a eleição presidencial continua aberta. Lula e Flávio Bolsonaro chegam à reta final separados por pequena distância nas pesquisas e unidos por um número incômodo: segundo o Instituto Real Time Big Data,  Lula é rejeitado por 50%% dos eleitores e Flávio Bolsonaro por 49% . Quando os principais concorrentes enfrentam resistência tão elevada, a vitória depende também da habilidade de reduzir medos, mobilizar bases e convencer os indecisos de que o adversário representa risco maior.

Cinco forças poderão decidir o pleito. A primeira é a narrativa antissistema. Em períodos de descrença, quem consegue apresentar-se como adversário da velha ordem recebe o voto de protesto, mesmo pertencendo à política tradicional. Flávio tentará vestir esse figurino e associar Lula, o PT, o STF e a burocracia a uma mesma engrenagem de poder. Narrativas não precisam ser inteiramente verdadeiras para produzir efeitos; precisam ser repetidas, compreendidas e sentidas.

Lula não pode competir com Flávio no terreno da ruptura. É presidente e encarna a continuidade. Sua resposta é apresentar o Estado como instrumento de proteção social. Para ele, a palavra-chave não é revolta, mas segurança: renda, comida, gás, luz, emprego e serviços. Confrontam-se duas promessas: a de quebrar o sistema e a de proteger os mais pobres contra as incertezas da vida.

Chegamos à segunda força: a continuidade e a expansão dos programas sociais. Eles chegam à mesa de milhões de famílias. Seu peso cresce no Nordeste, nas periferias e nos municípios menores, onde o Estado é percebido menos pelos discursos de Brasília e mais pelo dinheiro que entra em casa. Lula tentará converter essa capilaridade em voto. Flávio, para neutralizar a vantagem, precisará garantir a manutenção dos benefícios sem reproduzir o modelo petista.

A terceira força é o reajuste de cerca de 15% no Bolsa Família, anunciado a apenas 17 dias da eleição. O benefício mínimo passa de R$ 600 para R$ 691, e o valor médio estimado, de R$ 675 para R$ 777. O governo afirma que o aumento recompõe a inflação desde a reformulação do programa, em 2023, e que houve espaço fiscal. Politicamente, porém, é impossível separar o calendário do conteúdo. Uma decisão dessa magnitude, às vésperas da votação, projeta a imagem de um governo que entrega ganho concreto quando o eleitor forma sua decisão.

O efeito não é automático. Como os novos pagamentos começam depois do primeiro turno, em 19 de outubro, o governo venderá uma expectativa, não dinheiro já depositado. A oposição explorará o caráter eleitoral, o custo futuro e a sustentabilidade da medida. O reajuste pode reforçar Lula entre beneficiários, mas alimentar, na classe média, a percepção de uso da máquina. A política social funciona melhor quando é vista como direito permanente; perde força quando parece favor de ocasião.

A quarta força é a rejeição. Os 50% atribuídos a Lula e os 49% atribuídos a Flávio pela última pesquisa Real Time Big Data indicam que a eleição poderá ser menos uma escolha entusiasmada do que um julgamento comparativo. Cada campanha procurará vencer pelo medo: da volta do bolsonarismo ou da continuidade do petismo. O desafio será impedir que a própria rejeição ultrapasse a metade do eleitorado. Pequenos deslocamentos entre indecisos, eleitores de candidatos menores e abstencionistas poderão definir quem chegará ao segundo turno em melhores condições — e quem terá o teto mais baixo.

A quinta força é a crise no STF. Ela afeta mais Lula ou Flávio? No primeiro momento, tende a atingir mais Lula. O presidente é identificado com o poder constituído, nomeou Flávio Dino para a Corte e teve no Supremo um anteparo contra o bolsonarismo. Quando ministros se confrontam e suspeitas do caso Banco Master atingem o tribunal, a indignação favorece quem fala contra o sistema. Flávio ganha munição para mobilizar eleitores que já enxergam o STF como ator político, e não apenas como guardião da Constituição.

Mas a crise é uma faca de dois gumes. André Mendonça foi indicado por Jair Bolsonaro, e eventuais vínculos do escândalo com personagens do campo bolsonarista podem desmontar a narrativa de pureza da oposição. Lula tenta atribuir o caso ao ambiente do governo anterior e defender uma apuração geral. Se a crise permanecer como símbolo de arrogância institucional, prejudicará mais o presidente. Se produzir provas contra figuras próximas ao bolsonarismo, poderá ferir Flávio. O impacto dependerá menos do barulho e mais do rumo das investigações.

Em eleições apertadas, não vence necessariamente quem desperta maior admiração. Muitas vezes, vence quem administra melhor a própria rejeição, oferece a segurança mais crível e convence o eleitor de que o outro lado representa o maior perigo. No dia 4 de outubro, a urna poderá registrar menos um voto de amor do que um voto de necessidade, prevenção ou medo.

O Supremo Tribunal Federal não disputa eleições, mas a crise que se instalou em seu interior já entrou na campanha. A sessão extraordinária de 15 de setembro mostrou ministros divididos, acusações recíprocas e divergências sobre como examinar as suspeitas surgidas no caso Banco Master. O plenário terminou sem decidir se Alexandre de Moraes será investigado. A poucos dias do primeiro turno, a imagem de uma Corte incapaz de resolver seu próprio impasse passa a acompanhar o eleitor.

Uma crise do Judiciário não fica confinada aos palácios de Justiça. Ela atravessa as ruas, alcança a economia, contamina a política e altera a relação do cidadão com o Estado. Quando tribunais são percebidos como lentos, seletivos, corporativos ou politizados, não se enfraquece apenas a imagem de juízes e ministros. Enfraquece-se a crença de que a lei vale para todos — patrimônio da democracia.

Os brasileiros dão sinais de cansaço diante do interminável bate-boca da polarização. Prova disso é o súbito crescimento do professor Augusto Cury na última pesquisa Nexus/BTG, o único dos candidatos “nanicos” a chegar ao índice de dois dígitos (11%). Para ele, a polarização política é uma "doença, um fator que adoeceu e dividiu o Brasil de forma psicótica e esquizofrênica”. Ou seja, Cury se apresenta como o candidato anti-polarização.

O medo é uma das emoções mais antigas da humanidade. Foi ele que ensinou nossos ancestrais a fugir dos predadores, buscar abrigo e proteger a família. Como mecanismo de defesa, preserva a vida. O problema começa quando deixa de ser reação a um perigo concreto e passa a ser produzido, ampliado e administrado por governos, empresas, grupos políticos e plataformas digitais. Nesse momento, o medo transforma-se em mercadoria, instrumento de poder e fonte de lucro. Surge aquilo que podemos chamar de economia do medo.

Em 1949, Victor Nunes Leal escrevia uma obra célebre da ciência política - Coronelismo, Enxada e Voto. O livro se estabeleceu como leitura obrigatória para entender o regime da República Velha e as relações entre Estado, elites rurais e o eleitorado, alicerçando todo o sistema político. Passadas mais de 7 décadas, a razão pela qual o livro continua atual não se deve à permanência do coronelismo tal como Leal o conheceu, mas pelo fato de a lógica de apropriação de poder que descreveu ter assumido outras faces.

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