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A rejeição a candidato pode ser fatal. E o pleito deste ano mostra que os dois candidatos com mais chance de chegar ao segundo turno – Lula e Flavio Bolsonaro – têm altos índices de rejeição, o petista é rejeitado por entre 50,6% e Flávio, após a revelação dos áudios de conversas entre ele e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, quando o senador fez pedido de R$ 134 milhões para financiar o filme ‘ Dark Horse”, subiu de 49,8 para 52%., segundo pesquisa feita pela Genial/Quaest. Indica que Flávio Bolsonaro aparece com rejeição maior que a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esse índice pode até aumentar, a depender de novas revelações sobre as conversas entre o senador e Vorcaro.
Receoso de receber uma resposta atravessada, o repórter perguntou a Getúlio Vargas, à saída do Palácio do Catete: “Presidente, o que é preciso para vencer uma eleição?” Getúlio, com sua sabedoria sinuosa, respondeu: “Muita coisa. Boa memória, por exemplo. Política é como água no feijão. O que não presta flutua. O que é bom repousa no fundo.”
A quatro meses da eleição presidencial de 4 de outubro, um dado da pesquisa Genial/Quaest acende o sinal amarelo no sistema político brasileiro: 43% dos eleitores admitem que ainda podem mudar de voto. Em outras palavras, quase metade do eleitorado se declara disponível para rever escolhas, trocar preferências ou até aderir a candidaturas que ainda nem ganharam densidade nacional. Trata-se de um contingente gigantesco. O suficiente para virar cenários, alterar prognósticos e desmontar certezas aparentemente consolidadas.
A máxima segundo a qual “quem ganha em Minas Gerais ganha a eleição presidencial no Brasil” tornou-se uma espécie de axioma da política brasileira. Não se trata de mera superstição eleitoral. Há, por trás dela, um conjunto de razões históricas, geográficas, econômicas, culturais e sociológicas que ajudam a explicar por que Minas Gerais funciona como um espelho relativamente fiel do sentimento médio do eleitorado nacional.
Minas ocupa posição singular no mapa político. É o segundo maior colégio eleitoral do País, atrás apenas de São Paulo, e reúne características muito diversificadas. Há um pouco de Nordeste no Vale do Jequitinhonha, um pouco do Sudeste industrial na Região Metropolitana de Belo Horizonte, traços do agronegócio do Centro-Oeste no Triângulo Mineiro e áreas urbanas modernas convivendo com bolsões rurais tradicionais. Em outras palavras: Minas contém vários “Brasis” dentro de si.
Por isso, o comportamento do eleitor mineiro costuma refletir tendências nacionais. Diferentemente de Estados onde predomina um perfil ideológico mais homogêneo, Minas apresenta um eleitorado oscilante, moderado e pragmático. O mineiro, na tradição política brasileira, é visto como desconfiado, cauteloso e avesso a radicalismos excessivos. A velha frase atribuída a políticos mineiros — “mineiro come quieto” — traduz esse comportamento discreto e observador.
A estatística reforça o mito. Desde a redemocratização, raríssimas vezes o vencedor da eleição presidencial perdeu em Minas. Tancredo Neves compreendia profundamente o peso simbólico e estratégico do Estado. Depois dele, praticamente todos os grandes presidenciáveis concentraram atenção especial no território mineiro. Fernando Henrique Cardoso venceu em Minas; Luiz Inácio Lula da Silva também; Dilma Rousseff, mineira de nascimento político, igualmente; Jair Bolsonaro triunfou no Estado em 2018; e Lula retomou Minas na eleição de 2022. O padrão se repete com impressionante frequência.
Há ainda um elemento comunicacional importante. Campanhas presidenciais precisam construir pontes entre extremos sociais e regionais. Minas, por sua diversidade interna, testa justamente essa capacidade de conciliação. Um candidato que consegue dialogar simultaneamente com o agronegócio, a indústria, o funcionalismo público, os setores populares e a classe média urbana mineira tendem a demonstrar musculatura para conversar com o País inteiro.
Outro aspecto decisivo reside no centro ideológico do eleitorado mineiro. Minas raramente embarca integralmente em aventuras políticas muito radicais. O eleitor mineiro costuma funcionar como fiel da balança. Quando o ambiente nacional se inclina para mudança, Minas acompanha; quando prefere estabilidade, também sinaliza cedo essa preferência. O Estado age como uma espécie de termômetro da moderação brasileira.
Mas é preciso relativizar o determinismo da frase. Nenhuma eleição se resume a um único Estado. O Brasil mudou muito. A força crescente do Nordeste, o peso econômico de São Paulo, a expansão do Centro-Oeste agrícola e a influência das redes digitais fragmentaram os antigos padrões eleitorais. Ainda assim, Minas continua sendo um território estratégico porque sintetiza tensões centrais do País: tradição e modernidade, conservadorismo e pragmatismo, interior e metrópole, assistência social e empreendedorismo.
No fundo, o velho ditado revela algo maior: eleições presidenciais no Brasil costumam ser vencidas não pelos extremos, mas por quem consegue ocupar o centro psicológico do eleitorado. E poucos lugares representam tão bem esse centro quanto Minas Gerais.
As campanhas eleitorais, regra geral, se dirigem a dois tipos de públicos: os eleitores interessados em política, mais racionais e com intenção de voto definida; e os grupamentos dispersos, desinformados, instáveis e emotivos. Os primeiros acompanham discursos, programas, debates e posicionamentos ideológicos. São menos suscetíveis aos ataques desferidos pelos adversários de seus candidatos preferidos. Já os segundos, mais pragmáticos, oscilam conforme expectativas de ganhos concretos: emprego, saúde, educação, segurança, mobilidade, moradia e bem-estar social.
O eleitorado brasileiro não cabe em fórmulas rígidas. Não existe um padrão exclusivo para a decisão do voto. Proximidade afetiva, carisma, trajetória pessoal, viabilidade das promessas, realizações administrativas, empatia e até a estética do discurso influenciam escolhas. O voto, no Brasil, mistura emoção e cálculo, impulso e conveniência, paixão e pragmatismo.
Uma historinha ajuda a entender essa psicologia eleitoral. Diz-se que os franceses amam a liberdade como uma amante: de forma apaixonada e tempestuosa. Os ingleses a tratam como uma esposa fiel e tradicional, cultivando uma relação sólida e duradoura. Os alemães a respeitam como uma avó venerável, guardada perto da lareira, embora muitas vezes esquecida. Já os brasileiros se relacionariam com a liberdade como jovens de 18 anos diante de muitas namoradas: de maneira volúvel, intensa e dispersa.
Nosso eleitor, portanto, é eclético. Há nele um pouco da fidelidade britânica, da paixão francesa e do pragmatismo alemão. Mas permanece forte o traço da volatilidade. E é justamente sobre essa parcela mais movediça que as campanhas procuram agir.
Daí nasce a indagação recorrente: a campanha negativa funciona? O ataque direto, a desconstrução do adversário, a tentativa de destruir reputações e demolir imagens públicas produzem resultados eleitorais efetivos?
A experiência histórica mostra que os efeitos costumam ser limitados. Em muitos casos, campanhas negativas afetam apenas superficialmente a intenção de voto. Para boa parte do eleitorado, conceitos como ética, coerência ou moralidade aparecem de maneira abstrata, dissolvidos em meio às urgências da vida cotidiana. O eleitor comum tende a avaliar o candidato muito mais pela percepção de utilidade prática do que pelos refinamentos da retórica moral.
Nos Estados Unidos, a campanha negativa transformou-se em tradição política. Um marco histórico ocorreu em 1964, quando o democrata Lyndon Johnson enfrentou o republicano Barry Goldwater. O famoso anúncio televisivo mostrava uma menina desfolhando uma margarida enquanto contava pétalas. Subitamente, uma voz masculina iniciava uma contagem regressiva. Ao chegar ao zero, surgia na tela a explosão de uma bomba atômica em forma de cogumelo. Em seguida, a voz de Johnson advertia: “Isto é o que está em jogo”.
A peça publicitária não citava diretamente Goldwater, mas sugeria que sua vitória poderia levar os Estados Unidos a uma guerra nuclear. O comercial foi exibido apenas uma vez oficialmente, mas ganhou enorme repercussão ao ser repetido pelas emissoras de televisão e comentado em todo o país. A mensagem atingia o imaginário coletivo: associava o adversário ao medo e à insegurança.
Esse modelo de propaganda tenta colar no adversário valores rejeitados pela sociedade. O problema é que o ataque pode produzir efeito contrário. Muitas vezes, o candidato alvejado converte-se em vítima e passa a despertar solidariedade popular. A agressão retorna como um bumerangue contra o agressor.
A política brasileira oferece exemplos eloquentes. Na campanha para o governo do Rio Grande do Norte, em 1960, Aluízio Alves foi acusado pelos adversários de percorrer o Estado como um “cigano”, agitando multidões pelas estradas. A intenção era desqualificá-lo como aventureiro. O tiro saiu pela culatra. Aluízio apropriou-se do rótulo. Transformou o estigma em símbolo de popularidade. Seus comícios incendiavam emocionalmente as massas.
Quando Dinarte Mariz, então governador e patrono da candidatura adversária, desdenhou os participantes dos comícios chamando-os de “gentinha analfabeta”, Aluízio devolveu com habilidade retórica: “Minha querida gentinha”. A frase criou identificação afetiva imediata com as camadas populares. O candidato transformou o insulto em elo emocional. Resultado: venceu a eleição.
O episódio ensina uma lição clássica da comunicação política: ataques pessoais excessivos costumam gerar rejeição. O eleitor tende a perceber a agressividade como sinal de intolerância, arrogância ou desespero. Em vez de enfraquecer o alvo, a campanha negativa pode humanizá-lo.
Isso não significa que críticas e denúncias não tenham espaço legítimo no processo democrático. O confronto de ideias é inerente à disputa política. O problema surge quando o debate abandona propostas e projetos para mergulhar exclusivamente na destruição moral do adversário. Nessa hora, a política perde densidade programática e converte-se em espetáculo de hostilidade.
A maioria do eleitorado deseja campanhas cativantes, sustentadas por ideias, propostas e esperança. O cidadão quer saber como viverá amanhã, quanto pagará pelo gás, se encontrará vaga no hospital, se terá segurança nas ruas e oportunidades para os filhos. O excesso de ataques pessoais produz fadiga emocional e aprofunda o desencanto com a política.
Mas a agressão integra a própria cultura das disputas eleitorais. Na reta final das campanhas, os eleitores se tornam alvo de tiros cruzados. Alguns atingem o alvo de raspão; outros saem pela culatra. Em política, como na guerra, há projéteis que retornam ao ponto de origem.
O dinheiro ganha pleitos eleitorais? A pergunta, tão antiga quanto as primeiras disputas políticas organizadas, ressurge com força em tempos de campanhas milionárias, marketing digital sofisticado e estruturas eleitorais cada vez mais profissionalizadas. À primeira vista, a resposta parece óbvia: sim, o dinheiro é decisivo. Mas a realidade, como quase tudo na política, é mais complexa.
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