O ano de 2026 se apresenta como um ponto de inflexão na ordem internacional. Não é o início de um novo sistema global, mas a consolidação de um mundo em transição prolongada, marcado por instabilidade crônica, rivalidades estratégicas e rearranjos de poder. A promessa de uma globalização cooperativa, sonhada no pós-Guerra Fria, foi substituída por um cenário fragmentado, competitivo e cada vez mais imprevisível. 

O Brasil fecha o ano de 2025 em sua pior posição histórica no Índice de Percepção da Corrupção, caindo para 107º entre 180 países, e abrindo as cortinas de 2026 sob uma teia de escândalos, tensões e controvérsias.  

O fim de ano se aproxima sob o impacto de chuvas torrenciais que castigam diversas regiões do país, revelando a fragilidade histórica da infraestrutura urbana e a incapacidade crônica do poder público de prevenir tragédias anunciadas. Mas, para além das águas que transbordam rios e invadem cidades, o Brasil enfrenta um outro dilúvio — o das incertezas políticas e econômicas, que se acumulam no horizonte nacional.

A reativação explícita da Doutrina Monroe que o governo Donald Trump divulgou na semana passada recoloca a América Latina no centro da disputa geopolítica global. Como se recorda, a Doutrina Monroe foi formulada há mais de dois séculos, em 1823, e agora, no governo Trump, deve "retomar" seus princípios no relacionamento com a América Latina. Quando foi criada, a Doutrina Monroe afirmava que qualquer intervenção de potências europeias no hemisfério ocidental seria vista pelos EUA como uma ameaça direta à sua segurança.

A constatação é triste: 72% da população mundial vive hoje em países não democráticos, ditaduras ou autocracias eleitorais. Na última década, as ditaduras subiram de 22 para 33, enquanto os sistemas democráticos caíram de 44 para 32. Sobe também o número de democracias falhas, tipo a brasileira, um modelo híbrido que abriga componentes de regimes autocráticos e democráticos, onde ocorrem falhas na aplicação de princípios e valores, como liberdade de imprensa, independência entre os Poderes, repressão policial, ameaças de golpes, integridade do sistema eleitoral, entre outros.

O continente americano, formado pelas três Américas (do Norte, Central e do Sul), que somam 35 países soberanos e abrigam uma população combinada de aproximadamente mais de 1,037 bilhão de pessoas, vive um ciclo de tensões políticas que atravessa fronteiras, conecta sociedades distintas e revela uma mesma raiz: a incapacidade dos sistemas institucionais de lidar com as demandas de sociedades fragmentadas, digitais, velozes e profundamente desiguais.

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