“Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana”, novo livro do jornalista Jamil Chade, é o retrato mais agudo da decadência dos EUA. A nação até então aclamada como a mais poderosa democracia do planeta é retratada após uma longa jornada do experiente jornalista, que percorreu milhares de quilômetros do norte ao sul do país, passando por dez estados, cruzando a fronteira com o México e ouvindo histórias de refugiados e fanáticos seguidores de Donald Trump. Entre eles, destaca-se Jake (Jacob Chansley), o “Viking do Capitólio”, que ganhou fama pela fantasia usada na invasão do Congresso em 6 de janeiro de 2021. Chade o entrevistou em um restaurante de Phoenix e descreve sua aparência emblemática: “capuz de pele animal adornado com chifres, torso nu e o rosto pintado com as cores da bandeira dos EUA”.

Afinal, as democracias vivem tempos de erosão? No aclamado Como as Democracias Morrem, os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt sustentam que a erosão democrática pode ocorrer de forma gradual e insidiosa, muitas vezes a partir de líderes eleitos que minam as instituições por dentro. A partir dessa premissa, proponho aqui algumas reflexões.

No Brasil, a infância tem sido abreviada por duas forças opostas, mas complementares: a pobreza estrutural e a cultura do consumo midiático. De um lado, milhões de crianças são obrigadas a assumir responsabilidades adultas cedo demais, cuidando de irmãos, ajudando no sustento da casa ou, simplesmente, sendo empurradas para o trabalho infantil. De outro, crianças das classes médias e altas são induzidas a vestir-se, comportar-se e consumir como se fossem adultas em miniatura, pressionadas por agendas lotadas, padrões de beleza e a lógica da performance.

O recente episódio de obstrução da pauta legislativa na Câmara Federal, quando bolsonaristas promoveram um motim, impedindo, por dois dias, o trabalho regular do Congresso, sinaliza a continuidade da crise democrática que, há décadas, corrói a imagem de nossa representação política. Mas, convém lembrar que a degradação do Congresso Nacional não é apenas um problema conjuntural, mas estrutural, revelando o esgarçamento do pacto democrático e a crescente distância entre representantes e representados.

Um dos fenômenos mais significativos da contemporaneidade é a transferência de poder, dos centros tradicionais (Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário) para diferentes atores e regiões, propiciando o surgimento de novos polos de poder, que passam a atuar como agentes de mudança e influência, desafiando as instituições de Estado.

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