A palavra fascismo voltou ao centro do debate político internacional — e, com ela, a pergunta inevitável: Donald Trump é fascista? A resposta exige cautela. Fascismo não é xingamento nem rótulo genérico para autoritarismo. É um conceito histórico, com traços bem definidos, formulado a partir das experiências da Itália de Mussolini, da Alemanha nazista e de regimes correlatos no século XX.

No meio do pântano, pode-se ver uma magnífica filha da mãe-natureza: a flor de lotus. É uma belíssima flor que nasce no meio da água lodosa, fétida, em razão de plantas decompostas. A imagem da flor foi usada, faz bom tempo, para expressar minha crença de que no meio do caos há uma réstia de esperança. A frase de tempos idos era: "A política chegou ao fundo do poço em matéria de moral. Mas não morreu a esperança de nascer uma flor no pântano". O saudoso Saulo Ramos, jurista e sábio, e também um incréu, pinçou a alegoria em seu livro Código da Vida para atribuí-la aos "puros, os poetas, os idealistas", referindo-se à este escriba, não sem fazer votos para que "eles tenham razão" na pregação. 

Hoje deparei-me com duas fotografias que parecem traduzir o espírito do nosso tempo — como se o século inteiro coubesse em dois instantes: um que abraça, outro que foge.

A primeira imagem é a do beijo em Times Square, em agosto de 1945, dia de comemoração pelo fim da II Guerra Mundial. No meio da multidão, um marinheiro volta à sua terra e, tomado por um júbilo quase infantil, beija uma mulher de branco como quem beija a própria vida recuperada. Eu olho essa foto com um nó na garganta: 1945 foi o ano em que nasci — e naquele clique o mundo parece dizer, por um segundo, que ainda existe futuro.

Há quem enxergue em Donald Trump um presidente; outros, um personagem. Nos últimos dias, ele parece querer ser as duas coisas ao mesmo tempo: governante e espetáculo. Ao rebatizar a velha Doutrina Monroe como "Doutrina Donroe" —um trocadilho que carimba no próprio nome a ideia de que o hemisfério ocidental teria um dono— Trump não apenas provoca. Ele assina em letras garrafais uma concepção de poder: personalista, performática e transacional. 

  • Segurança pública, economia e polarização política, além de valores sociais e identitários, devem influenciar corrida 
  • Desafio será conquistar o eleitor cansado do conflito, que deseja estabilidade sem renunciar às mudanças 

A crise político-institucional latino-americana entrou, em 3 de janeiro de 2026, num patamar raríssimo desde a Guerra Fria: uma operação militar dos Estados Unidos em território venezuelano culminou na captura e extradição de Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores, para responderem a acusações nos EUA. Essa ação — ao mesmo tempo bélica e policial, na narrativa oficial — reposiciona a discussão sobre soberania na região e alimenta a leitura de que se abre um ciclo de "Nova Ordem", em que prevalece o fato consumado sobre os ritos multilaterais. 

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